“Amistad” e um certo clube em Bananal.

Texto: Ricardo Nogueira

“... eu chamo pelos meus antepassados para que venham a mim me ajudar. Fico sabendo que eles existiram de fato e, deste modo, ganho proteção nos momentos de impasses da vida”.
Cinque, personagem africano do filme “La Amistad”.

   Meu pai foi fundador e presidente da SAB. Também foi gerente do cinema  da cidade. O primeiro, um compromisso voluntário. O segundo, um trabalho necessário para complementar a renda que recebia como funcionário estadual.

  Ambos “roubavam” o tempo livre que ele tinha para a família. 

  Às noites, quando muitos outros pais estavam em casa, ele estava gerenciando o cinema, que só tinha sessões vespertinas e noturnas.  Nos sábados e domingos, além do cinema, ele se dedicava ao clube, uma referência social para a cidade.

  Para vê-lo, muitas vezes eu tinha de ir a um ou ao outro. As crianças naquela época eram colocadas para dormir bem cedo. Eram momentos curtos, de receber um carinho, um afago na cabeça, uma brincadeira rápida e um beijo de boa noite.

  Apesar disso, nunca senti que o clube e o cinema me privavam da companhia de meu pai. Ao invés de destestá-los, acabei amando-os.

  Muitas vezes me vejo no lugar daquele menino do filme “Cinema Paradiso”. Meu fascínio pelo cinema se deu de forma bem semelhante ao daquele personagem.

  Com a SAB o sentimento foi ainda mais forte porque não era ficção, mas realidade.

  As pessoas reais, da minha cidade, lá se encontravam e se confraternizavam. O clube era respeitado. Promovia bailes que atraíam pessoas de várias cidades. Era um orgulho para Bananal.

  Lá, paqueras viravam namoros. Namoros viravam noivados que viravam casamentos. Os filhos participavam de matinês, domingueiras, carnavais, formaturas e externavam seu amor pelas mães em bailes especiais.

  As meninas eram oficialmente apresentadas à sociedade debutando em bailes de gala. Os rapazes fingiam detestar colocar ternos ou blazers, mas no fundo curtiam o “upgrade” no visual.

  E entre a SAB e o Cine Santa Cecilia vivi toda a minha infância e adolescência.

  O cinema fechou.

  A SAB sobreviveu.

  Nas telas assisti, e vivi, aventuras em grandes obras da sétima arte. Muitas me emocionaram ao ponto de servir de referência na vida adulta.

  No clube assisti, e vivi, grandes e inesquecíveis momentos da minha vida. Todos eles moldaram o que sou hoje.

  O fechamento do cinema em Bananal não arrefeceu minha predileção pelos filmes.

  Já em DVD, voltei a me emocionar com um filme, chamado “Amistad”.
 
Nele, um grupo de africanos, em época escravocrata, é capturado em sua terra natal. A briga por sua posse acaba em um tribunal americano, onde, após algumas reviravoltas, acabam defendidos na corte suprema por um respeitado ex presidente, de notável saber. Perante os magistrados, o velho ex presidente invoca a crença da tribo dos homens sob julgamento.

  Segundo ela, ao se deparar diante de grandes problemas e desafios, o homem deve invocar a sabedoria e a memória de seus antepassados, para que eles iluminem os seus caminhos.

  Com meu pai aprendi estórias boas e ruins sobre a SAB. As ruins ficavam por conta de comentários maldosos contra quase todos os presidentes e diretores. As boas, invariavelmente, remontavam à fundação e aos anos dourados do clube.

  O mais importante que aprendi é que muitas gerações ansiaram para que Bananal tivesse um clube. Era considerado um sonho inatingível, lá pelos idos dos anos 40 e 50. “Onde já se viu, uma cidadezinha pequena dessa achar que pode ter um clube para eventos sociais?”.

  Pois a nossa cidadezinha conseguiu transformar o sonho em realidade no final dos anos 50.

  No início da década de 60 a sede foi construída. E tudo graças ao ideal de um Juiz de Direito, de um Promotor Público, de um Pároco inestimável e outros dez grandes homens que muito fizeram pela causa bananalense em suas respectivas áreas. A esses grandes homens somaram-se outros grandes, homens e mulheres.

  Eles deixaram um valioso legado, que, queiram ou não, reflete a sociedade que construímos.

  Há muito mais em jogo do que um clube esquecido que sucumbe à ação do tempo e à falta de memória. Se a SAB perecer estaremos enterrando o suor, as lágrimas, os sorrisos, os momentos de várias gerações de bananalenses.

  De minha parte, confesso que cheguei a achar que não tinha mais jeito e fiquei resignado com o fim da SAB.

  Aí vieram as lembranças e a formação de um grupo que, assim como eu, pretende invocar a sabedoria de nossos antepassados e resgatar o ideal que estava hibernando, sob a crueldade do tempo, num imóvel situado na Rua Dr. José Rangel de Almeida, em pleno centro de Bananal.
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Sobre Ricardo Nogueira

RICARDO LUÍS REIS NOGUEIRA, jornalista (Mtb. 32.204 RJ), foi um dos fundadores do jornal, atuando como Diretor Executivo e Redator Chefe desde 1987. Atualmente, é o Editor Responsável da Gazeta de Bananal e coordena o projeto do portal eletrônico do jornal na internet.