Tognon: Vocês têm um tesouro histórico fascinante

Entrevista – Prof. Marcos Tognon – publicada em 30/01/2006

“Vocês têm um tesouro histórico fascinante”
 
GAZETA – Como foi estabelecido o primeiro contato com o senhor a respeito da igreja?
Prof. Tognon – A paróquia daqui entrou em contato com a UNICAMP em função de um grupo que coordeno chamado IPR (Inovação e Pesquisa para o Restauro) que está prestes a completar um ano. Nós estudamos casos paradigmáticos de restauro. Situações difíceis e materiais em procedimentos de restauro.
Fizemos uma visita aqui em setembro e constatamos um certo risco de queda da torre sineira, que acabou sendo nossa principal preocupação. E existia uma intervenção, que podemos notar ainda hoje, de cobrimento da parede, que talvez tenha causado grande parte dos problemas que temos aqui. E era um caso excepcional, na medida em que era um tipo de intervenção de restauro que eu, até então, não conhecia na bibliografia de casos recentes realizados no Brasil.
Fizemos um estudo e apresentamos uma proposta de direção técnica dos trabalhos com um cronograma. A partir do aceite do padre, da comunidade e da comissão que cuida da igreja, nós começamos, num período de setembro até final de novembro, estudando e preparando todo um conjunto de procedimentos de segurança para fazermos essa intervenção.

Construções antigas, como essa igreja, demandam um trabalho muito meticuloso. Quais os detalhes a serem observados nessa obra, especificamente?
Em restauro existe uma metodologia muito importante que ocupa grande parte do trabalho que é estudar as características do edifício. Ver qual foi o material utilizado na construção, quais as técnicas possíveis que foram utilizadas, quais as dimensões do edifício, quais as relações de espaço que ele tem...
Isso tudo de forma minuciosa, que entra no âmbito de análises químicas e físicas. Ou seja, a consistência e as especificidades dos materiais utilizados. Geralmente, são materiais da própria região. É uma questão encantadora do patrimônio. Ele é o resultado da cultura material e natural de uma região. Essa taipa daqui de Bananal é de Bananal. Não existe outra igual a ela. O procedimento de construção pode até ser igual de um lugar para o outro, mas a consistência dela, o clima pelo qual ela passa, as reações que ela tem é uma coisa específica.
Daí, cada construção é única e cada situação exige um conjunto de estudos que, às vezes, leva muito tempo em relação à própria execução. Aqui, a execução do trabalho de demolição e preenchimento não deve passar de 20 dias, mas nós passamos quase 100 dias estudando o que fazer nesse restauro.

E todo esse estudo é feito em equipe...
A equipe que trabalha nunca é de uma só pessoa. Todo trabalho de restauro tem, no mínimo, duas, três ou quatro pessoas envolvidas. Nesse caso aqui, temos quatro especialistas trabalhando. Foi reunindo e discutindo entre todos que chegamos a essas soluções. Cada obra de restauro tem uma solução específica. Nunca tem uma solução genérica. A gente não pode utilizar uma fórmula num lugar e repeti-la em outro lugar. E isso demanda tempo.
Foi esse trabalho preventivo que garantiu a manutenção da torre sineira e a reconstrução que estamos realizando. 

  É possível conciliar técnicas modernas de construção para restaurar edifícios antigos?
Não há preconceito algum em se empregar técnicas antigas com técnicas novas. Este é um exemplo claro. Estamos utilizando tecnologia do século 21, com fibras especiais de 50 mm, com a terra socada, que é a técnica de construção mais antiga da humanidade.
Construções de terra piloada vem da antiga Mesopotâmia (onde hoje fica o Iraque) e é similar à técnica empregada na construção da Muralha da China. Isso também é excepcional aqui em Bananal. Vocês têm uma obra construída com uma técnica que tem, no mínimo, 6 ou 7 mil anos. 

            Como essa fusão entre técnicas antigas e modernas é feita na prática?
A base de todo o material é a terra. Pesquisamos na região para encontrar a terra de melhor consistência da relação entre areia e argila. Em seguida, fizemos testes para medir sua capacidade de retrair ou não com a água, porque esse é o principal problema de toda estrutura que se constrói.
Depois, tivemos que encontrar um substituto para as fibras naturais que, interligadas, davam solidez à construção, como capim ou fezes de animais com capim mastigado. Eles davam estrutura interna entre as cadeias de argila. Por serem vegetais, essas fibras se dissolveram após 200 anos e tiveram de ser substituídas. Para isso utilizamos propipopileno com fibras de 0,3 mm por 50 mm, rugosa, áspera, que não deforma, não apodrece, não muda de tamanho e não cria reação química. Vamos juntar tudo isso, fazer uma sequência de apiloamento para melhor compactação numa inovação técnica, criando um procedimento novo.
A terceira inovação é a utilização da cola branca. Ela é uma dispersão de acetato sendo um aglutinante muito bom, neutro como a fibra. Feito uma lama, com a fibra linear, a cola, a lama e um pouco de água, vamos preencher lugares onde não será possível apiloar. Lugares onde tem fissuras, aberturas.

            Vocês detectaram algum outro ponto de risco nesta construção?
Encontramos e já foram tomadas todas as providências.
Alguns pontos no telhado e o coro. As obras de reparo no telhado já estão quase terminando, pois o telhado é a coisa mais importante e merece muita atenção em qualquer tipo de construção. No coro, embora esteja em total segurança, encontramos alguns pontos de ataques de cupim e, por precaução, interditamos a presença do grupo musical. Embora a intervenção aqui tenha sido numa área limitada e homogênea, fizemos uma vistoria geral. Toda vez que temos uma obra de restauro, mesmo pontual, é nosso dever emitir um laudo geral para verificar se há algum ponto emergencial. Se constatado, indicamos para fazer a obra.

Foi encontrado algum material de interesse histórico durante o restauro?
Encontramos uma parte da parede original em taipa, ainda com a marca dos pilões utilizados pelos escravos no século 19. Outra coisa interessante, que não é raro, mas mostra a importância dessa obra, são os pregos de ferro forjado, de quase 25 cm, utilizados para fazer o engaste do telhado.
Mas o que mais nos impressionou foi a resistência extremamente forte dessa igreja para manter toda essa estrutura em pé ainda. Cada metro cúbico de terra piloada tem 1.800 quilos. Só nessa pequena parte do restauro vamos preencher com quase 28 toneladas de terra, que comprimidas darão 16 metros cúbicos. Então você imagina quanta terra foi utilizada para fazer essa igreja inteira.
             A gente até brinca que devia existir aqui um morro que foi todo utilizado na construção.

Para finalizar, o senhor gostaria de deixar algum recado para os bananalenses?
Vou falar o que já expressei numa missa em que o padre Rodrigo me deu a oportunidade. Eu não conhecia Bananal e já vim quase dez vezes nesses seis meses. Fico impressionado com a qualidade dessa cidade, com seus edifícios, com seu centro histórico. O que mais posso sugerir é que Bananal lute para preservar não só a parte ecológica, já bastante reconhecida, mas também o seu patrimônio edificado urbano que merece um grande cuidado e uma grande valorização. A cidade tem um potencial gigantesco para dominar esse turismo histórico-cultural no Vale do Paraíba.
Também quero parabenizar a comunidade pelo apoio que tem dado à obra e agradecer a confiança depositada no nosso trabalho. A gente espera corresponder à altura e realizar uma excelente intervenção de restauro na perspectiva de chegarmos até 2011, no bicentenário da igreja, realizando outras obras além dessa daqui.

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Sobre Ricardo Nogueira

RICARDO LUÍS REIS NOGUEIRA, jornalista (Mtb. 32.204 RJ), foi um dos fundadores do jornal, atuando como Diretor Executivo e Redator Chefe desde 1987. Atualmente, é o Editor Responsável da Gazeta de Bananal e coordena o projeto do portal eletrônico do jornal na internet.