Obras na Matriz contam com especialistas e técnicas inovadoras de restauração.

Arquivo – GAZETA DE BANANAL – matéria de 30 de Janeiro de 2006

 

Equipe envolvida no restauro após contato do Pe. Rodrigo, em 2005.

Em julho do ano passado, poucos dias antes da festa do Padroeiro em 06 de agosto, a cidade inteira se assustou quando uma parte do reboco da lateral direita da Igreja Matriz veio abaixo.
Felizmente, ninguém passava por ali naquele momento.
Superado o susto, a preocupação passou a ser com os cuidados a serem tomados para proceder a reforma da parte que cedeu, perigosamente próxima da junção com a torre do sino.
Além disso, não se sabia ao certo se existiam outros pontos de risco.
Em função disso, o padre Rodrigo Fernando Alves resolveu pedir orientação à restauradora Cláudia Rangel. De imediato, ela disse que nada deveria ser feito até a chegada de especialistas na área.
Mais uma vez mostrando-se uma grande amiga de Bananal, Cláudia Rangel possibilitou o contato entre padre Rodrigo e especialistas da Unicamp.
Mesmo sem conhecer Bananal eles se dispuseram a vistoriar a igreja. Chegando aqui, não esconderam o fascínio que o tipo de construção empregado na igreja, do século 19, lhes causou.
Não tiveram dúvida de que se tratava de um tipo peculiar de construção em taipa de pilão que muito poderia enriquecer seus conhecimentos na matéria.
Abraçaram o desafio de restaurar a parte avariada sem cobrar honorários. Somente as despesas de estadia e alimentação ficaram a cargo da paróquia.
A restauração ganhou uma equipe altamente gabaritada, composta por dois arquitetos, um geoquímico (da UNIMEP) e um professor de engenharia de estruturas.
A Gazeta ouviu dois deles. Os conceituados Professores Marcos Tognon (o primeiro à esquerda na foto) e Eduardo Salmar (ao lado do Padre Rodrigo).
Ambos discorreram sobre suas funções e a magnitude do trabalho empregado na construção da Igreja Matriz.
Certamente, a maioria dos bananalenses que passam pelo local não têm noção de que ali estão sendo mescladas tecnologias inovadoras com técnicas de construção que vem dos primórdios da humanidade.
Modernas fibras de propipopileno servirão para substituir o capim que tinha a função de ligar a estrutura interna de argila dessa portentosa edificação de taipa. Ao mesmo tempo, uma cola branca, de acetato, foi especialmente desenvolvida para servir de aglutinante. Misturada com lama, ela servirá para tapar lugares onde existam fissuras e não seja possível colocar a terra apiloada (socada com pilão).
Somente no ponto a ser restaurado serão utilizadas 28 toneladas de terra que, comprimidas após uma série de apiloamentos, se transformarão em 16 metros cúbicos de taipa para preencher o espaço danificado.
Estes são alguns pontos interessantes deste restauro, detalhados pelo professor Tognon em entrevista publicada na página ao lado.

O TRABALHO COM A TERRA

Por sua vez, o professor Eduardo Salmar enfatizou que a complexidade do trabalho reside no fato de que uma obra de restauro reserva muitas surpresas: “a gente só depara com as condições da madeira e demais materiais à medida que vai fazendo a sua retirada”.
 Coordenador do Laboratório de Sistemas Construtivos da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), gosta de dizer que seu trabalho é com terra. São 20 anos de experiência em técnicas de construções de pau-a-pique, taipa e tijolos de adobe.
Para o restauro na igreja foram analisados os solos de cinco pontos da cidade quanto à riqueza em argila e areia. Três delas foram consideradas ideais, sobretudo no bairro Cerâmica. “Fizemos uma composição caseira aqui em Bananal, com terra vermelha e terra branca para obter a matéria prima no ponto correto. Estamos com o solo perfeito e em breve todo esse painel estará reparado. É um trabalho magnífico de fazer. Sairemos daqui com uma experiência que nos trará inestimável enriquecimento científico. Os bananalenses devem se orgulhar dessa construção”, enfatiza Salma.
A importância deste restauro para os especialistas é tanta que, no site do IPR, grupo comandado pelo professor Tognon, a obra é destaque na página inicial, com foto do material utilizado na restauração.
Reparos no reboco lateral mesclaram técnicas antigas com modernos métodos de construção.
Share on Google Plus

Sobre Ricardo Nogueira

RICARDO LUÍS REIS NOGUEIRA, jornalista (Mtb. 32.204 RJ), foi um dos fundadores do jornal, atuando como Diretor Executivo e Redator Chefe desde 1987. Atualmente, é o Editor Responsável da Gazeta de Bananal e coordena o projeto do portal eletrônico do jornal na internet.