A tradição de Corpus Christi em Bananal.


     A devoção católica no Corpus Christi em Bananal é secular. Mas a tradição dos tapetes nas ruas para a passagem da procissão tem nome e sobrenome: Dona Doralice Costa.
     Em 2003, a Gazeta de Bananal fez uma singela reportagem com ela que estava prestes a completar 50 anos do início dessa bela e artesanal tradição.
     Para o deleite dos leitores, o blog reproduz, logo abaixo, a citada matéria e também um artigo escrito em 2005 pela cativante Dona Chemune Nader (inesquecível primeira professora deste blogueiro) tratando das origens da celebração do Corpus Christi pela Igreja Católica no mundo e também em Bananal. 



GAZETA DE BANANAL – Junho de 2003


Dona Dora mantém devoção particular de 49 anos frente à Igreja do Rosário.

DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO - Sentada frente à porta da Igreja do Rosário, Dona Dora observa a neta Samantha ajudar no “tapete” com o tema do Ano Vocacional.
   
    
     Em 1954, a Sra. Doralice Costa (Dona Dora), iniciava uma tradição que, no transcorrer dos anos, iria se fundir à sacra data de Corpus Christi em Bananal. Na cidade já havia o costume de “enfeitar”as ruas, mas um ano antes, recém chegada à cidade, ela observara que, apesar da procissão passar por ali, a rua defronte à  Igreja do Rosário ficava sem nenhum tipo de adorno alusivo à data religiosa. “Eu achei aquilo uma pena. Justo na frente de uma igreja, não ter nada. Então comecei a fazer isso. Naquela época a rua não era calçada. Era chão puro. A primeira pintura que fiz foi se apagando durante o dia e mal podia ser visto na hora que a procissão passou”, relembra com bom humor.
   No transcorrer dos anos, Dona Dora foi transformando os enfeites de rua no Corpus Christi em pura arte, inspirando-se em vitrais de igrejas, campanhas da fraternidade e outros temas religiosos. Neste ano, optou pelo logotipo do Ano Vocacional, focado no batismo como inspiração para a vida e o trabalho.
   Desde os tempos do Monsenhor Cid ela costuma mostrar, com antecedência, os esboços do desenho ao pároco local.
  Seguia o método de fazer medições detalhadas e confeccionar os moldes, em papel, que seriam transpassados para a rua. Sinal dos tempos, hoje ela já acompanha a elaboração do desenho em computador, com cálculos e projeções do filho engenheiro, Alfredinho.
   Sem poder abaixar-se, Dona Dora fica obrigada a supervisionar de perto o trabalho de filhos, netos e demais familiares. Por sinal, sua dedicação sempre encontrou respaldo na família, ajudando-a a preparar verdadeiras obras de arte. Não foram poucas as vezes em que seus admiradores lamentaram o fato de que tamanha beleza seria desfeita com o passar da procissão. Um costume familiar que, junto a tantos outros, ajudam a compor o rosário de tradições de Bananal.
   Por tudo isso, a cidade que se prepare, porque no próximo ano, ao completar 50 anos de tanta devoção no Corpus Christi, Dona Dora merece, dos mais variados setores de nossa comunidade, seguidas homenagens e agradecimentos.
   

GAZETA DE BANANAL – Junho de 2005

FESTA DE CORPUS CHRISTI
Chemune Nader

Em  Bananal esta tradição possui mais de 60 anos ...

O primeiro tapete artístico foi feito por Dona Dora, em 1955, ao pintar no chão, em frente à Igreja do Rosário, o rosto de Nossa Senhora ...


   A festa religiosa de Corpus Christi (Corpo de Cristo) foi instituída pelo Papa Urbano IV no ano 1274, após o famoso milagre de Lanciano, quando o povo, num ato de desagravo, levou para as ruas o Santíssimo Sacramento, em procissão.

(Em Lanciano, um sacerdote, após pronunciar as palavras da Consagração, duvidou que aquela hóstia tivesse mesmo se transubstanciado no Corpo e no Sangue de Cristo. Imediatamente a hóstia, nas suas mãos, transformou-se em um pedaço de carne e sangrou. Examinada por muitos e muitos cientistas, católicos e não católicos, ficou comprovado cientificamente que aquele tecido carnoso e o sangue faziam parte de um coração humano. Recolhidos em âmbulas de ouro, estas duas espécies encontram-se expostas em uma igreja de Lanciano - Itália, para onde acorrem muitos peregrinos.)

   Urbano IV determinou então que a cada ano, em todo o mundo cristão, se repetisse essa homenagem pública, para afirmar a presença real do Corpo e Sangue de Cristo na Hóstia Consagrada.
   Este ano de 2005 foi decretado pelo Papa João Paulo II um Ano Eucarístico, isto é, inteiramente dedicado à Eucaristia.
   A tradição de enfeitar as ruas neste dia vem de muitos anos. Ela traduz a , o carinho e a homenagem do povo ao Cristo que irá passar em solene procissão.
   Aqui em Bananal esta tradição possui mais de 60 anos. No início eram apenas folhagens que se espalhavam pelas ruas. As janelas das casas eram ornamentadas com toalhas bordadas e vasos com flores.
   Aos poucos começaram a surgir as passarelas de serragem que foram ganhando colorido e enfeites de tampinhas de garrafa recobertas com papel laminado, e de pó de café que era reservado durante um ano inteiro.
   A imaginação das pessoas foi criando asas e passaram a colorir a areia, a serragem e até o sal grosso. A cada ano havia o empenho de cada rua criar um desenho mais bonito que o anterior.
   Começaram a surgir os tapetes, cada um mais artístico que o outro.
   O primeiro foi feito pela Professora Doralice (Dona Dora), em 1955. Neste ano ela teve a idéia de pintar o chão, em frente à Igreja do Rosário, um tapete com o rosto de Nossa Senhora. Usou pó xadrez para isso e como ela mesma recorda, foi a maior dificuldade, pois ninguém acreditava que iria dar certo.
   E há 50 anos, completados neste ano, ela vem realizando este trabalho, apesar de todas as limitações físicas que o tempo lhe deu.
   Hoje são muitos os artistas que espalham seus tapetes pela cidade e maior ainda o número de turistas que vem apreciá-los.
   É bonito ver a união e a disposição das pessoas neste dia. Crianças, jovens e adultos começam cedinho o trabalho. O resultado é um colírio para os olhos.
   E Deus deve gostar desta demonstração de carinho do nosso povo, pois nos retribui com muitas bênçãos.
            É fato comprovado que, realmente, Bananal é uma cidade muito abençoada!

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Sobre Ricardo Nogueira

RICARDO LUÍS REIS NOGUEIRA, jornalista (Mtb. 32.204 RJ), foi um dos fundadores do jornal, atuando como Diretor Executivo e Redator Chefe desde 1987. Atualmente, é o Editor Responsável da Gazeta de Bananal e coordena o projeto do portal eletrônico do jornal na internet.