Pandemia interrompe tradição de 65 anos em Bananal no Corpus Christi


Tapetes artísticos pelas ruas do centro histórico começaram em 1955 com a então professora Doralice Costa, recém chegada à cidade

Por Ricardo Nogueira

A pandemia provocada em 2020 pelo novo coronavírus alterou o modo de vida das pessoas em todo o mundo. Adiou eventos culturais, jogos esportivos, cancelou projetos e provoca efeitos devastadores na economia mundial. Neste ciclo da história global, impossível noticiar algo sem registrar a excepcionalidade do momento. Não seria diferente em relação às tradições.

Em Bananal, a imagem da rua em frente à igreja do Rosário sem qualquer adorno na data em que se celebra Corpus Christi é emblemática... e histórica.

A tradição dos tapetes artísticos começou ali e sofre neste ano uma interrupção marcante: seriam completados 65 anos ininterruptos do costumeiro hábito dos fiéis iniciarem, ao alvorecer ou mesmo na madrugada, o preparo de verdadeiras obras de arte, usando como tela as ruas de paralelepípedos do centro histórico de Bananal.

Para gerações  de bananalenses, essa tradição católica é personificada na grande mentora que iniciou as ornamentações em 1955, em frente da igreja do Rosário. A eterna professora Doralice Costa.

Verdadeira referência educacional e cultural na cidade, Dona Dora, como é carinhosamente chamada por todos, não apenas iniciou a tradição, como serve até hoje de inspiração para a qualidade do trabalho de elaboração das pinturas e ornamentos dos tapetes.

É absolutamente impossível abordar essa tradição local sem mencioná-la ou ouvi-la. São raras as reportagens de jornal, rádio ou TV em que ela não tenha sido mencionada ou entrevistada.


Aos 99 anos, plenamente lúcida, ela assiste com tristeza os efeitos da pandemia. Gentilmente, ela atendeu a reportagem por telefone. Com a serenidade de sempre, revelou que está chocada com o momento atual. 

Ela costuma projetar com os filhos o tema a ser emoldurado no tapete, invariavelmente inspirado nas Campanhas da Fraternidade de cada ano. As decisões são fruto de reuniões e, desde os tempos do Monsenhor Cid, ela submete o esboço do desenho à apreciação do pároco local. "Neste ano não foi possível pensar no desenho do tapete. Já tem tempo que a gente sabia que não poderia ter aglomeração nessa época, então não pensei em nada com antecedência".

Na impossibilidade de mobilizar o trabalho deste ano, ela revelou que ontem (10) pegou a pasta onde guarda, em sequência, a maioria dos desenhos transpostos para a rua nesses anos todos. "Fiquei imaginando, o que vou colocar para preencher o espaço de 2020? Então, cheguei a pensar em desenhar um tapetinho e registrar como o desenho do ano que não teve".

Dona Dora relembrou a primeira vez que decidiu colocar alguns enfeites em frente da igreja. Em 1954 havia em Bananal apenas o costume de se espalhar folhagens pelo trajeto da procissão, mas o trecho em  frente da igreja do Rosário ficava sem nenhum adorno. Isso incomodou a então recém chegada professora na cidade. "Era chão batido ainda. O primeiro tapete na verdade foi de flores. Coloquei as crianças pra jogarem flores sobre o chão".

No ano seguinte, 1955, ainda sem saber que iniciava ali uma tradição para Bananal, sua primeira pintura foi inspiradora. E para muitos, abençoada. "Ela teve a ideia de pintar, em frente à Igreja do Rosário, um tapete com o rosto de Nossa Senhora. Usou pó xadrez (...) foi a maior dificuldade porque ninguém acreditava que iria dar certo", escreveu a também professora Chemune Nader em artigo para a Gazeta de Bananal em 2005.

"Meu marido disse que não sobraria nada quando chegasse a hora da procissão. Foi quase isso mesmo", relembrou Dona Dora para a reportagem de hoje.

A partir daí, o trajeto da procissão foi virando uma passarela contínua em artes feitas à base de serragem, areia colorida, pó de café e tampinhas envoltas por papel laminado, além do pó xadrez.

No espaço candidamente conquistado por Dona Dora à frente da igreja do Rosário, as flores de 1954 evoluíram nos anos seguintes para pinturas primorosas, reproduzindo vitrais de igrejas, santos, anjos, cálices sagrados e vários outros tipos de imagens sacras.

Muitas delas, de tão marcantes, além de consolidarem o aspecto cultural do Corpus Christi em Bananal, ainda permanecem na memória de muitos conterrâneos e turistas.

O 11 de junho de 2020 entra para a história como a data em que, forçada por uma pandemia, foi interrompida a tradição dos tapetes artísticos na celebração do Corpus Christi em Bananal.

Mas isso não impede Dona Dora de ministrar mais uma lição.

Convidada a deixar uma mensagem, do alto de sua sabedoria quase centenária, ela externou mais uma vez a sua fé inquebrantável: "Minha mensagem é para as pessoas não perderem a esperança. Não pode perder nunca a esperança... E ter fé, muita fé em Nossa Senhora. Minha confiança em Nossa Senhora sempre me ajudou na vida... Ser devoto de Nossa Senhora, porque ela é que segura a gente... Minha mensagem é essa. Tenham fé em Nossa Senhora que ela vai interceder por nós e isso vai passar".    


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Sobre Ricardo Nogueira

RICARDO LUÍS REIS NOGUEIRA, jornalista (Mtb. 32.204 RJ), foi um dos fundadores do jornal, atuando como Diretor Executivo e Redator Chefe desde 1987. Atualmente, é o Editor Responsável da Gazeta de Bananal e coordena o projeto do portal eletrônico do jornal na internet.