Carlindo, um sonho de Bananal na história do Santos Futebol Clube.


  Na década de 50 o futebol estava entranhado na sociedade bananalense. Já era assim desde os anos 20.
   Cada partida era mais do que uma disputa por vitória. Era um evento social que reunia e integrava as classes sociais da cidade. Atraia representantes do clero, políticos, comerciantes, fazendeiros, etc. Ou seja, um pequeno retrato do Brasil na época.

  Sob esse cenário pitoresco, Bananal produzia craques locais de grande potencial como os atacantes Rodolfo e Luizinho Eletricista, o elegante "center alf" (volante) Pindaro e muitos outros. Conversas rotineiras pregavam a ida desses jogadores para os grandes clubes, ante a convicção de que estariam no mesmo patamar técnico de muitos profissionais. 

  No entanto, nenhum atleta promissor havia tido oportunidade concreta para tal aventura. Foi quando, debaixo das traves, defendendo a Associação Atlética Bananalense, um garoto passou a se destacar pelo reflexo apurado, agilidade e defesas fantásticas.

  Assistindo o jovem Carlindo em seus saltos, pontes e saídas de bola, os torcedores reviviam imagens de Castilho, Barbosa e Gilmar. Numa época em que a televisão era raridade nos lares, a referência eram os documentários que antecediam os filmes nas sessões de cinema. 

  De família numerosa, era filho de Floripes Tressoldi Nogueira e Carlindo dos Santos Nogueira, o Dunga, um dos precursores do futebol na cidade. Curiosamente, os irmãos mais velhos não levaram o nome do pai e recaiu sobre ele esta primazia.

  A unanimidade de Carlindo em Bananal fez com que Augusto da Silva Saraiva, Diretor do Santos Futebol Clube, resolvesse abrir as portas para testes na Vila Belmiro. Saraiva, um expoente da sociedade santista, era casado com Dona Djanira Tressoldi, tia de Carlindo. Acolhido no lar do casal na cidade de Santos, ele pode se dedicar à promissora trajetória sem as dificuldades características dos jogadores em inicio de carreira. Só sairia da casa dos tios ao se casar, na segunda metade dos anos 60.

  E Carlindo correspondeu às expectativas. Passou nos testes e ficou de vez em Santos. 

  Sem saber, carregava o sonho de gerações de bananalenses. A cidade tinha enfim um jogador profissional num time de expressão. E ainda por cima no Santos de Gilmar, Zito, Mengálvio, Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. 

  A exigência nos treinos era grande. O nível dos goleiros era altíssimo e um seleto grupo já estava sendo preparado para suceder o grande Gilmar dos Santos Neves. Carlindo foi contemporâneo também de Manga, Laércio e Cláudio, que viriam a se tornar ícones da meta santista. 

  Enquanto o Santos de Pelé brilhava mundo afora, o time de aspirantes (equivalente aos juniores de hoje) também colecionava títulos. Na época, as equipes aspirantes gozavam de prestigio junto aos dirigentes.

  Na foto do time campeão de 61 está ninguém menos do que Athiê Jorge Cury, presidente do clube em seus anos de ouro. 


Carlindo com o time Campeão Paulista de Aspirantes em 1960.
O presidente do clube Athiê Cury (de gravata) entre os bicampeões de 61.
 
  Atuando como titular na categoria, Carlindo foi bicampeão paulista em 1960-1961.
  Faixas, fotografias e outras lembranças são até hoje guardadas com esmero e carinho por sua irmã, Selma, em Bananal.

Carlindo recebendo a faixa de campeão pelo Santos F. C.
  O goleiro bananalense colecionou grandes atuações e os observadores previam que ele e Cláudio logo disputariam a camisa 1 do alvinegro praiano.

  Carlindo chegou a disputar 3 jogos oficiais pelo time titular do Santos.

  Foi quando o destino começou a interromper o sonho. Vitima de um problema de apêndice, a efetivação no primeiro time foi adiada. Depois, um sério problema no joelho acabou por abreviar sua carreira.

  Mesmo com a tristeza de saber que não poderia continuar, jamais deixou o Santos.

  Enquanto pode, disputou jogos amistosos e partidas de exibição com o esquadrão santista. Em alguns deles, atuou junto com Zoca, irmão de Pelé.

  Carlindo passou o resto de sua vida em Santos. De temperamento singelo, alegre e extrovertido, colecionou amizades, dentro e fora da Vila Belmiro. Era benquisto pela cidade. Gostava muito de dançar e de se reunir para bate papos e carteados. Faleceu em 1999, aos 60 anos, vitima de um trágico assalto. 

  Casou-se duas vezes. Do primeiro matrimônio teve duas filhas – Soraya e Sylmara – e do segundo, um filho, Paulo Augusto.

  Sua primeira esposa, Célia, é filha de Antoninho Fernandes, jogador notável antes da era Pelé. É um dos maiores artilheiros da história do clube e foi o técnico vitorioso que comandou a equipe no tricampeonato paulista de 1967-1969.

Em pé, no avião, em uma das viagens do alvinegro praiano.
  Carlindo, por seu talento e mérito vivenciou o Santos Futebol Clube numa época mágica. Por isso pode ser considerado um privilegiado.

  Nem as agruras do destino conseguiram tirá-lo da história do clube.

  Como se sabe, o campeoníssimo alvinegro praiano completou 100 anos no dia 14 de abril deste ano. E o número 100 tornou-se emblemático.

  No levantamento dos 100 goleiros que mais envergaram a camisa 1 santista aparece na 97ª posição o nome que tanto orgulho traz para familiares, amigos  e conterrâneos: 

  Carlindo dos Santos Nogueira Filho, o bananalense que vestiu, e honrou, a gloriosa camisa do Santos Futebol Clube.

Carteira de ex-atleta profissional garantia acesso como convidado na Vila Belmiro.
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Sobre Ricardo Nogueira

RICARDO LUÍS REIS NOGUEIRA, jornalista (Mtb. 32.204 RJ), foi um dos fundadores do jornal, atuando como Diretor Executivo e Redator Chefe desde 1987. Atualmente, é o Editor Responsável da Gazeta de Bananal e coordena o projeto do portal eletrônico do jornal na internet.